A vida imita a arte? O golpe do falso namorado da novela acontece todos os dias na vida real! - Protiviti
A vida imita a arte? O golpe do falso namorado da novela acontece todos os dias na vida real!
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A vida imita a arte? O golpe do falso namorado da novela acontece todos os dias na vida real!

Publicado em: 20 de agosto de 2026

Por Paulo Rodrigo Barreto

Como uma simples pesquisa pode evitar o golpe do falso namorado e proteger seu patrimônio.Quem está acompanhando a novela das nove na TV GLOBO, Quem Ama Cuida, provavelmente está indignado com a história de Carmita, personagem vivida por Deborah Evelyn.

Encantada por um homem educado, gentil e aparentemente bem-sucedido, ela acredita ter encontrado um novo amor. O relacionamento evolui rapidamente, a confiança aumenta e, quando menos espera, ela aceita fazer um empréstimo bancário em seu próprio nome para ajudá-lo em uma situação “temporária”.

Depois disso, no entanto, o homem desaparece, e o que restou foi a dívida, a vergonha de contar o que aconteceu e a difícil tarefa de reconstruir a própria vida.

Embora essa seja uma história de ficção, ela retrata um golpe muito real e muito mais frequente do que a gente pense, muito conhecido como golpe do amor.

A construção do estelionato sentimental

No início, parece roteiro de filme romântico.

As mensagens de “bom dia” chegam antes mesmo do despertador tocar. Há elogios, demonstrações de carinho, planos para viagens, conversas que atravessam a madrugada e a sensação de que, finalmente, alguém apareceu para enxergar exatamente quem você é.

Rapidamente, o “eu” dá lugar ao “nós”. O futuro passa a ser planejado a dois, mesmo que, em muitos casos, o casal sequer tenha se encontrado pessoalmente. E, curiosamente, sempre existe um obstáculo que impede esse encontro: um casamento que está terminando, uma viagem de trabalho inesperada, a distância ou qualquer outra justificativa aparentemente plausível.

Até que o roteiro muda.

Surge uma ligação desesperada. Uma emergência médica. Uma conta bloqueada. Um investimento que não pode esperar. Um problema inesperado que só pode ser resolvido com uma ajuda financeira imediata. As histórias variam, mas dois elementos estão sempre presentes: um forte apelo emocional e um senso de urgência.

Movida pela confiança construída ao longo da relação, a vítima acredita que está ajudando alguém que ama. Em muitos casos, faz transferências, contrai empréstimos, financia despesas ou até compromete o próprio patrimônio na expectativa de que tudo será resolvido em breve.

Mas a promessa nunca se concretiza.

O golpe não acontece porque a vítima é ingênua. Muito pelo contrário. Ele acontece porque o criminoso conhece profundamente o comportamento humano e sabe como construir vínculos, despertar empatia e manipular emoções. Quando a confiança é conquistada, as barreiras de proteção diminuem e decisões que jamais seriam tomadas em uma negociação comum passam a parecer naturais.

Não por acaso, esse tipo de fraude é conhecido como estelionato sentimental. Antes de atingir o patrimônio da vítima, o golpista conquista aquilo que vale muito mais: sua confiança.

E se fosse possível descobrir alguns sinais antes?

Quando uma empresa pretende fechar um contrato importante, ela costuma pesquisar quem está do outro lado da mesa. Verifica histórico, reputação, processos judiciais e diversas outras informações antes de tomar uma decisão. Essa checagem se chama Due Diligence, ou, em bom português, uma investigação prévia para reduzir riscos.

Mesmo sem saber o nome, nós fazemos due diligence no nosso dia a dia. Seja para comprar em uma loja online, seja para pesquisar um hotel ou pousada para viagem, seja para contratar um serviço. Mas raramente fazemos quando alguém entra em nossas vidas dizendo que está apaixonado.

É claro que ninguém deve investigar todas as pessoas com quem conversa. Relacionamentos precisam de confiança. Mas confiança não exclui prudência. Principalmente quando começam a surgir pedidos de dinheiro, empréstimos ou qualquer tipo de envolvimento financeiro.

A boa notícia é que existem algumas verificações simples, gratuitas e totalmente legais que qualquer pessoa pode fazer antes de tomar uma decisão que pode custar muito caro.

1. Faça uma pesquisa básica no Google 

Pode parecer simples, mas comece pesquisando o nome completo da pessoa entre aspas (por exemplo: “João da Silva”). Isso ajuda o Google a buscar exatamente aquela combinação de palavras, tornando os resultados mais precisos.

Não sabe o nome completo? Existe uma alternativa interessante. Se a pessoa utiliza o número de telefone como chave PIX, é possível simular uma transferência no aplicativo do seu banco. Antes da confirmação da operação, normalmente é exibido o nome completo do titular da chave. Não é necessário concluir a transferência para visualizar essa informação.

Depois disso, faça novas pesquisas utilizando o nome completo, o número de telefone e o endereço de e-mail informado pela pessoa. Em muitos casos, esses dados já aparecem vinculados a anúncios antigos, redes sociais, empresas, processos judiciais ou até relatos publicados por outras vítimas.

2. Verifique se existem processos judiciais 

Hoje em dia, existem plataformas como o Jusbrasil e o Escavador que facilitam muito a consulta de informações públicas sobre processos judiciais. Elas reúnem em um único lugar registros provenientes de diversos órgãos do Poder Judiciário.

Basta pesquisar o nome completo da pessoa para verificar se há processos vinculados a ela. Caso encontre alguma informação relevante, vale a pena consultar também o processo diretamente no portal do tribunal responsável, onde normalmente é possível acessar mais detalhes sobre o caso.

É importante destacar que a existência de um processo judicial não significa que alguém seja culpado, nem deve ser utilizada, isoladamente, para formar um julgamento sobre uma pessoa.

Por outro lado, quando a pesquisa revela um histórico com diversas ações de cobrança, execuções, estelionatos ou outras fraudes patrimoniais, esse conjunto de informações merece atenção.

O alerta pode ser ainda maior quando aparecem processos relacionados à violência doméstica e familiar, ameaças, perseguição (stalking), descumprimento de medidas protetivas, injúria ou difamação. Cada caso possui suas particularidades e deve ser analisado individualmente, mas a repetição desse tipo de ocorrência pode indicar um padrão de comportamento incompatível com a imagem que a pessoa procura transmitir.

3. Verifique se a história realmente faz sentido 

Grande parte dos golpistas constrói uma imagem de sucesso. Dizem ser empresários, investidores, médicos, executivos ou donos de empresas bem-sucedidas. A boa notícia é que muitas dessas informações podem ser verificadas gratuitamente.

Se a pessoa afirmar que é sócia de uma empresa, por exemplo, consulte o CNPJ e confirme se a empresa realmente existe, está ativa e possui características compatíveis com a história apresentada.

Observe também se as informações fazem sentido quando analisadas em conjunto. O endereço informado corresponde ao local onde a empresa funciona? A atividade econômica é compatível com a profissão que ela afirma exercer? As datas, os cargos e os demais detalhes contam a mesma história?

Em investigações, raramente uma grande mentira aparece sozinha. Na maioria das vezes, ela é precedida por pequenas inconsistências que, quando reunidas, revelam que algo não está certo.

Informação também é uma forma de proteção

Nenhuma pesquisa é capaz de dizer, com absoluta certeza, quem uma pessoa realmente é. Mas uma coisa é certa: informação reduz riscos.

Os golpistas esperam que a emoção fale mais alto que a prudência, que a confiança seja construída antes da verificação e que perguntas importantes nunca sejam feitas.

Se antes de fazer uma compra pela internet, reservar um hotel ou contratar um prestador de serviços nós pesquisamos avaliações e buscamos referências, por que agir de forma diferente quando alguém pede algo muito mais valioso: a sua confiança?

É claro que pesquisar não significa desconfiar de todos. Significa apenas adotar uma postura responsável antes de tomar decisões que envolvam dinheiro, patrimônio ou informações pessoais.

Esse é justamente o princípio da Due Diligence: reunir informações confiáveis para reduzir riscos e permitir decisões mais conscientes.

Na Protiviti, aplicamos essa metodologia para apoiar empresas na avaliação de clientes, fornecedores, parceiros e terceiros. Também realizamos investigações patrimoniais e diligências voltadas a pessoas físicas, auxiliando advogados, investidores, credores e clientes particulares na obtenção de informações que contribuam para decisões mais seguras e fundamentadas.

Talvez nunca seja possível conhecer completamente as intenções de outra pessoa. Mas, antes de emprestar dinheiro, assumir uma dívida ou comprometer seu patrimônio por alguém, vale a pena dedicar alguns minutos para descobrir quem realmente está do outro lado da tela. Porque, às vezes, a maior prova de amor é cuidar de si mesmo primeiro.

Paulo Rodrigo Barreto

Paulo Barreto é Consultor Master de Forensics & Integrity da Protiviti, atuando na condução e liderança de projetos de Investigação de Ativos e Recuperação de Crédito, com experiência prática na apuração de estruturas de blindagem e ocultação de ativos, investigações corporativas, due diligences e análise de vínculos. Formado em Direito e pós-graduado em Jornalismo Investigativo e em Direito Público.

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