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Empresas ainda estão engatinhando no combate ao assédio no Brasil

Por: Protiviti

Publicado em: 24 de julho de 2022

Para Fernando Fleider, CEO da ICTS Protiviti e Aliant, consultoria especializada em compliance e gestão de risco, é preciso priorizar o treinamento e os canais de denúncia qualificados

As denúncias de assédio sexual contra o ex-presidente da Caixa Econômica Federal Pedro Guimarães e seu consequente pedido de demissão do cargo serviram para reacender a discussão sobre como as empresas devem lidar com esse tipo de situação – especialmente quando as acusações envolvem alguém nos cargos mais altos da companhia.

Uma ampla pesquisa divulgada no início deste mês pela ICTS Protiviti, consultoria especializada em gestão de riscos, compliance e segurança, mostrou que, no Brasil, 52,64% das denúncias feitas por funcionários se referem ao relacionamento interpessoal, categoria que inclui práticas abusivas – somente as queixas de assédio representam 31%. Os dados são de um estudo realizado a partir de 125.412 registros feitos nos canais de denúncias de 563 empresas.

“Tanto o assédio sexual quanto o moral acontecem em todos os escalões”, diz Fernando Fleider, CEO da ICTS Protiviti e Aliant, que tem entre seus clientes Vale, Carrefour e Magazine Luíza. “Mas, nas categorias hierárquicas superiores, entre os executivos, a proporção de casos de assédio sexual é maior do que nas categorias inferiores, ou middle management”, afirma.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista que ele concedeu a Época NEGÓCIOS.

Época NEGÓCIOS – Tendo em mente que a proporção de casos de assédio sexual é maior nos altos escalões, o que as empresas devem fazer para evitar esse tipo de situação?

Fernando Fleider – Nós vemos, que, no Brasil, as empresas ainda estão engatinhando no tema do assédio. Se comparamos a experiência de uma empresa brasileira com a de uma americana, por exemplo, a quantidade de treinamentos que eles têm sobre assédio sexual é muito, mas muito maior. Então, as empresas brasileiras ainda são muito tímidas em relação a isso. Não sei se temos que ir para um extremo americano, onde nem se pode encerrar o e-mail falando “Beijos.” Mas é preciso deixar claro quais situações têm que ser evitadas. Você não convida para jantar, não chama para festar, não oferece bebidas, só para citar o que está sendo reportado no caso da Caixa.

Então, em primeiro lugar, as empresas precisam determinar o que esperam em termos de comportamento e reforçar isso junto aos funcionários. Em segundo lugar, é preciso deixar as pessoas muito à vontade para entender que existe um lugar em que elas podem reportar abusos. Nesse caso que estamos discutindo, as pessoas não confiavam no canal que tinham à disposição. É fundamental criar essa confiança.

EN – Esse seria um pilar das boas práticas para evitar casos de assédio?

Fernando – Sim. Veja bem, há três pilares importantes dentro dessas boas práticas. O primeiro é o que chamamos de balanço de consequência. Quando uma denúncia acontece, é preciso que a empresa mostre que não vai aturar situações desse tipo, e que medidas punitivas sejam tomadas imediatamente. Isso vai fazer com que as mulheres se sintam mais seguras por um lado, e também vai desestimular homens a terem esse tipo de comportamento. O segundo pilar é a questão do report. As pessoas têm que ter confiança no report, saber que serão ouvidas e que suas denúncias serão levadas em consideração. O que nos leva para o terceiro pilar, que é a apuração: as funcionárias precisam saber que a denúncia está sendo investigada, e que essa investigação será levada a cabo. O canal de denúncia não pode ser apenas um repositório de queixas.

EN – O que o líder da empresa deve fazer ao saber que existe uma denúncia contra um de seus executivos?

Fernando – As empresas têm que entender que um dos maiores riscos atuais para uma empresa, se não o maior, é o risco reputacional. Então, é preciso tratar disso com muita seriedade. Se o caso envolve um executivo de uma grande empresa, eu aconselharia contratar uma investigação independente, isenta e especializada. Em geral, a empresa não tem experiência e estrutura para lidar com esse tipo de problema.

Em segundo lugar, a investigação tem que ser levada até o fim e ter consequências, como eu falei anteriormente. Não importa se o executivo é um super diretor financeiro. Seu comportamento inadequado vem antes da sua performance.

Hoje em dia, nós percebemos que as empresas já têm essa consciência. Tem aumentado o número de executivos de alto calibre sendo afastados rapidamente, sem hesitação. Isso mostra um esforço grande das empresas em tomar a atitude correta. Porque, ao final de uma investigação, muitas vezes você chega a conclusões que não necessariamente seriam conclusivas num tribunal. Mas elas podem ser conclusivas sob o ponto de vista do líder.

EN – E o que deve ser feito em relação à pessoa que fez a denúncia?

Fernando – A primeira questão a entender é se existe algum tipo de risco à integridade física daquela pessoa, e o que pode ser feito a respeito. A segunda questão é se comprometer com a manutenção do emprego daquela pessoa, mostrar a ela que, não importa o que venha a acontecer, ela não terá nenhum prejuízo em sua carreira.

EN – Com base na pesquisa da consultoria, também tem havido um crescimento das denúncias de assédios sexuais, certo?

Fernando – Sim, essas denúncias vêm numa grande subida. Não acho que seja necessariamente porque os homens estão assediando mais. Pode ser também um entendimento maior da mulher de que aquela situação que ela está vivendo realmente é assédio e pode ser denunciada. Ela está mais segura para reportar. E sabe que as empresas estão muito mais propensas a escutar. Então, claramente, a gente está em uma situação muito melhor do que o que estava antes.

* Fernando Fleider, CEO na ICTS Protiviti e Aliant

Fonte: Época Negócios
https://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2022/06/empresas-ainda-estao-engatinhando-no-combate-ao-assedio-no-brasil-diz-especialista.html

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